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Agostinho de Hipona

Um homem intenso, orgulhoso e sensual que desejava conhecer a verdade.

Poucos escritores capturaram a personalidade de Agostinho tão vividamente quanto Robert Payne em Augustine: The Sensualist [Agostinho: o sensualista], em The Fathers of the Western Church [Os pais da igreja ocidental]. Payne (1911-1983) foi um escritor ilustre cujas obras incluíam romances e não-ficção, biografia e poesia, tradução e crônicas. Embora estudiosos recentes possam matizar algumas das interpretações de Payne, seu retrato geral de Agostinho como homem permanece. Este extrato, usado com permissão, leva-nos da juventude de Agostinho até sua famosa conversão.

Agostinho pertence ao nosso tempo. O mais devasso de nossos santos, o homem com a mente mais esclarecida, a opinião mais exaltada de si mesmo, o conhecimento mais delicado de si mesmo, ele fala a linguagem que conhecemos muito bem. Ele pertence ao tempo de crise, quando a mente humana anda atrás de propósitos definitivos.

Não há lazer para ele: ele se desgasta com a fúria de conhecer todas as coisas, de determinar todas as coisas. Tendo recebido seu nome em homenagem a dois imperadores cruéis, Agostinho e Aurélio, ele poderia ser cruel também. E, como os grandes romancistas psicológicos modernos, ele está armado com um bisturi e preparado para cortar a alma, até que ela revele seus segredos.

Filho problemático

Agostinho era um númida, um destes povos estranhos que habitam as planícies costeiras do norte da áfrica, nem negro nem europeu, mas descendentes, como os bascos, de alguma raça antiga de colonizadores. Ele era alto e magro, de ombros caídos. Tinha um nariz longo, uma testa larga, lábios grossos e olhos negros e, ao andar, dava passos largos, trotando. Sua pele era de um bronze escuro.

Ele nasceu num domingo, no dia 13 de novembro de 354, na cidade de Tagaste, atual Algéria. Era uma cidade agradável, com muros brancos altos, entre campos de florestas. Azevinhos e pinheiros cresciam ao lado dos rios, leões rugiam na floresta; e javalis, lebres, tordos e codornizes podiam ser caçados apenas atirando pedras de cima do muro da cidade.

A cidade, construída pelos romanos, tinha um teatro, um fórum, banhos, longas colunatas de mármore e um mercado importante. Entre os patrícios que decidiam o destino da cidade estava um certo Patricius, proprietário de terras que tinha uma fazenda e um número considerável de escravos. Ele parecia um capataz severo que nunca se reconciliou com o fato de ter tido Agostinho por filho.

Há boas razões para isso. O filho tinha um temperamento ingovernável. Ele mentia com freqüência, gostava de jogar mais do que de estudar, e também era ladrão, fato que ele mesmo confessou. Pior ainda para Patricius, o filho possuía uma grande afeição por sua mãe, Mônica, e nenhuma por seu pai.

Patricius, um membro antigo e sério do “esplêndido conselho de Tagaste”, possuindo todos os privilégios da nobreza menor (embora não em abundância de riqueza), desejava acima de tudo que Agostinho se tornasse um homem culto. Além disso, ele tinha pouco interesse pelo filho, permitia que o menino fizesse o que bem entendesse e não se preocupava nem um pouco com sua moral. Quando bem mais tarde Agostinho escreveu sobre o comportamento de seu pai, o maior crime de Patricius foi precisamente ter permitido ao garoto ser tão imoral quanto quisesse.

Mônica tinha 22 anos quando Agostinho nasceu. Já havia um filho mais velho, Navigius, e uma filha cujo nome não sabemos, que se tornou freira. é possível que Agostinho tenha deliberadamente omitido seu nome dos registros, pela mesma razão pela qual ele nunca mencionou o nome de sua amante ou do jovem rapaz que uma vez lhe trouxe muito sofrimento: ela deve tê-lo magoado de alguma forma. Ele se magoava facilmente.

Agostinho passou muito tempo jogando um curioso jogo chamado “nuts” (castanha). Neste jogo, três conchas do mar e uma ervilha são misturadas, e o vencedor é aquele que descobre sob qual concha a ervilha está escondida. Agostinho jogava bem, mas ele denunciava facilmente qualquer outro com dedos mais rápidos que trapaceassem melhor que ele.

Ele roubou da cozinha, da adega e da mesa. Era um mentiroso convincente para seu tutor e professores. E tinha uma mira excelente com a pedra e teve “esplêndidas vitórias” contra garotos de escola cujas faces feridas e sangrando eram evidências de sua destreza.

Quanto às lições, Agostinho tinha horror delas. Acima de tudo detestava grego: porque era difícil, e aritmética porque não fazia sentido. “Qual é”, ele perguntava, “a utilidade de um mais dois ser igual a três?” Ele era repetidamente espancando na escola, por desaforo e por jogar dados em sala de aula. Anos mais tarde, quando já era um velho e usava a insígnia dos bispos, a lembrança destas surras ainda estava vívida em sua mente; ele trazia à lembrança a agonia do remorso das tiras de carne sangrando.

Juventude lasciva

Aos 12 anos foi mandado para uma escola em Mandaura, na velha cidade númida, orgulhosa da antigüidade e pagã até a raiz dos cabelos. Pela primeira vez, ele se apaixonou pelas letras. Ele leu Virgílio, chorando pela morte de Dido; estudou bem, recebeu uma mesada surpreendentemente grande de seu pai e parecia ter se juntado a um grupo pagão (anos depois, um velho gramático de Mandaura lhe censurou por se desviar do paganismo).

Além disso, ele lia poesias de amor. Seus sentidos sempre tinham sido aguçados, e nesta cidade quente ocorreram suas primeiras experiências com a sensualidade. Não era amor, apenas luxúria. Ele fala destas coisas abertamente com pouca compaixão por sua própria juventude desobediente.

“Eu me atrevi a perambular pela floresta e perseguir meus amores vagabundos debaixo das sombras”, ele diz, talvez se referindo apenas aos abrigos onde os amantes ficavam. “Senhor, quão repugnante eu era aos teus olhos”, ele diz em suas Confissões. “[A luxúria] despertava uma confusão dentro de mim, atirando minha juventude imprudente nos precipícios do desejo, e assim eu ia para ainda mais longe de Ti, e Tu me deixaste à minha própria sorte: a torrente de minhas fornicações debatia-se e inchava, fervia e atropelava.”

Mas a falta de castidade não era seu único pecado. Uma vez, durante os feriados, roubou algumas pêras. Ele fala deste evento com uma profundidade psicológica bastante extraordinária. Ele desejava roubar as frutas, e o fez; mas não foi levado pela fome ou pela pobreza. Na verdade, ele nem queria as pêras, havia frutas melhores em seu pomar.

E, mesmo depois do roubo, ele não teve alegria no que roubara. “Mas eu tive alegria”, ele disse, “no roubo e no pecado”. Seu conhecimento de pecado aumentaria prodigiosamente nos anos seguintes.

Agostinho tinha 16 anos quando o pai dele morreu. Teria sido forçado a se tornar um trabalhador se Romanian, um cidadão distinto da Tagaste, não tivesse vindo lhe ajudar. Romanian era rico e dado a atos de generosidade, e era tão respeitado que, durante sua vida, sua estátua foi erigida no mercado local. Agostinho o adorava e recebeu dele uma mesada. Ele já mostrava talento para literatura, e Romanian o enviou a Cartago para estudar.

Cartago era o lugar com o qual tinha sonhado, o maior porto do Mediterrâneo ocidental, um lugar de lendas, dedicado aos deuses Astarte e Vênus, uma cidade reluzente entre os lagos e o mar, com seu Capitólio*, seu palácio e faculdades prolíficas. “Cartago”, escreveu Apuleius, “é a musa celestial da áfrica, a inspiradora do povo romano”, e assim era. Todas as raças congregavam ali.

A cidade era pagã. A deusa Tanit era adorada, distinguia-se agora sob o nome de Virgo Coelestis, ou Virgem do Céu. Agostinho participava das cerimônias feitas para a deusa. “Nossos olhos ansiosos”, ele dizia, “descansavam à vista da deusa e das moças, suas adoradoras”.

Falando em cartaginês, misturando-se com as multidões, aproveitando a vida com uma amante, seu sangue subindo com o calor da febre, seu pai morto e sua mãe longe, Agostinho se atirava aos deleites da cidade.

Antes que ele deixasse Tagaste para vir a Cartago, sua mãe lhe deu um conselho solene:

“Minha mãe pediu que eu não cometesse fornicação, e especialmente que não maculasse a esposa de alguém. Isto não parecia melhor que conselho de mulher, o que seria uma vergonha para eu seguir. Corri com tanta cegueira que tinha vergonha, entre os meus pares, de ser menos culpado ou desaforado do que eles eram, e eu os ouvia gabarem-se de seus erros; sim, e quanto mais bestiais, mais eles se gabavam; eu me alegrava de fazer o mesmo, não pelo prazer do ato apenas, mas pelo louvor dele também.”

Febres da mente

Entretanto, uma mudança estava vindo sobre ele. Embora as febres carnais permanecessem, havia agora febres na mente. Ele se atirou aos estudos, tornou-se um excelente estudioso de latim: continuou e estudou retórica, matemática, música e filosofia. “Minha mente inquieta estava disposta a buscar conhecimento”, ele escreveu.

Ele fez amigos com facilidade, e alguns, como Alypius, Nebridius e Honoratus tornaram-se seus amigos para a vida toda. Ele leu o livro de Cícero chamado Hortensius, que atualmente existem apenas fragmentos. Também começou a ponderar sobre como podia gastar sua vida: ocorreu-lhe que dificilmente alguém poderia gastá-la melhor do que adquirindo sabedoria.

Mas o que era sabedoria? Alguns alunos falavam de Cristo, outros de Mani, o persa, que tinha sido crucificado e introduziu o sacramento do pão e frutas. Mani tinha afirmado a coexistência eterna de dois reinos, um de trevas, o outro de luz. A guerra eterna estava marcada entre luz e trevas, entre o bem e o mal.

Mani proclamava ser um apóstolo de Cristo, quem, ele argumentava, não havia nascido, nunca se tornou homem e nunca morreu. O maniqueísmo tinha muito em comum com o cristianismo gnóstico. Sua crença dualista, seu ódio ao cristianismo estabelecido e sua demonologia estranhamente não convincente faziam os cristãos terem horror dele.

Agostinho confessou mais tarde que foi por que os maniqueístas falavam sobre a “verdade” que ele foi seduzido a crer neles; se eles tivessem usado alguma outra palavra, ele talvez não tivesse caído tão facilmente. Ele havia decidido que valorizava a verdade acima de tudo, e que subiria a hierarquia maniqueísta, pois ele já era disposto a ser ambicioso.

Tendo se juntado ao secto, ele retornou a Tagaste, apenas para descobrir que Mônica, que havia se tornado ainda mais fervorosa em sua fé cristã durante sua ausência, agora o considerava um pecador caído além da redenção. Ela o colocou para fora de casa.

Agostinho simplesmente andou até a casa de Romanian, explicou a situação e recebeu permissão para se alojar na villa do homem rico como tutor de seu filho, Licentius. Ele continuou a ganhar fama por seus discursos, jogava com a astrologia, gozava a vida agradável de filho adotivo de um homem rico, ganhou gosto por coisas caras e sabia perfeitamente bem que em toda a Tagaste, não havia ninguém tão brilhante e tão promissor como Agostinho.

Então, a bolha estourou. Seu amigo mais chegado, “aquele que era doce para mim acima de toda doçura da vida”, morreu. E o que era pior, quando este amigo ficou gravemente doente, recebeu o sacramento cristão. Agostinho ficou abalado. O rapaz tinha sido um maniqueísta. Eles passavam tempo de lazer juntos, discutiam tudo juntos: por que ele tinha mudado sua religião, assim, de repente?

Agostinho nunca descobriu a resposta. ”Resolvi esperar até que ele recobrasse suas forças para eu poder falar com ele francamente.” Mas, embora a força tenha voltado por um tempo, poucos dias depois o rapaz morreu.

Pânico louco pelo luto

Confrontado com a morte, Agostinho se atirou num pânico louco pelo luto. “Estas trevas caíram sobre meu coração”, ele escreveu, “e onde quer que eu olhe, há morte apenas. Meu país tornou-se uma tortura, a casa de meu pai, pura melancolia. Todos os prazeres que dividi com ele se tornaram uma agonia horrenda, agora que ele se foi. Meus olhos o buscam em todo lugar, e não o acham. Eu odiava todos os lugares familiares, porque ele não estava lá”.

Este luto limpou o caminho para a sua conversão. Ele continuou maniqueísta ainda por um determinado tempo, mas não podia deixar de pensar na morte do rapaz. Aí se seguiu a longa luta entre o maniqueísta e o cristão na alma de Agostinho.

Logo após a morte de seu amigo, Agostinho achou-se debatendo com Faustus, o maniqueísta mais instruído do norte da áfrica, e as dúvidas sobre a relevância da religião persa começaram a surgir. O mal era uma substância? Os maniqueístas prometiam a ressurreição da carne?

Ele estava impaciente: não havia respostas satisfatórias para estas perguntas. Havia, então, uma verdade? Mônica, que o tinha perdoado e agora permitia que vivesse sob seu teto, insistia que a verdade estava com Cristo.

Agostino pensou que a verdade talvez estivesse numa carreira legal em Roma: ele se tornaria outro Cícero. Então decidiu partir para Roma assim que fosse possível. Mônica apegou-se a ele e recusou-se a deixá-lo ir.

Ele gostava de um subterfúgio, e quando tudo estava pronto para a viagem, permitiu que ela o acompanhasse até o litoral. Ele fingiu ter um amigo em um dos barcos no porto e prometeu voltar de manhã. Mônica passou aquela noite num pequeno oratório em memória de Cyprian, o protetor de Cartago. Quando ela acordou, seu filho tinha ido embora.

Descartando velhos amores

Em Roma, Agostinho ainda se apegou ao que sobrou de sua crença no maniqueísmo, uma crença que ele compartilhou com seu velho amigo de escola, Alypius, que o buscou e ficou próximo dele durante os anos que seguiram. Agostinho ficou doente, aparentemente de infecção relativa à malária, e, por isso, o debate consigo mesmo ficou mais implacável. Onde estava a verdade? Na beleza? Em Deus? Na guerra entre as forças da luz e das trevas? Houve momentos em que ele deu lugar ao niilismo selvagem, e outros momentos quando flertou com o neoplatonismo.

Durante todo este tempo ele continuou seus estudos em retórica, até que se tornou o jovem contestador mais brilhante de Roma. O prefeito de Roma era Symmachus, que tinha ligações estreitas com o maniqueísmo. Quando a universidade de Milão pediu ao prefeito um novo professor de retórica, Symmachus indicou Agostinho.

Quando Agostinho chegou a Milão, estava preparado para abandonar o maniqueísmo. Seus argumentos eram muitos arbitrários.

“Eles dizem que o melão dourado vem da casa do tesouro de Deus, mas que a gordura dourada do presunto e a gema de um ovo são do mal”, ele escreveu. “Por quê?” “Por que a cor da alface proclama divindade para eles, e a cor do creme proclama somente o mal? E por que este horror de carne? Pois, veja você, porco assado nos oferece uma cor brilhante, um cheiro agradável, um saber apetitoso – sinais certos, de acordo com eles, da presença divina.” O maniqueísmo tinha suas raízes no materialismo; o espírito de Agostinho, assim como sua esperteza, já estava criando asas.

Todos em Milão apelavam para Ambrose, e não demorou muito para Agostinho recorrer ao bispo que já tinha o caráter de um santo. “Ele me recebeu”, escreveu Agostinho, “como um pai que estava feliz com minha vinda, de um jeito muito ‘bispal’”. Ambrose tinha uma posição honrada; e Agostinho evidentemente tinha inveja da aura de dignidade que o cercava. Além disso, Ambrose era conhecido por seu estilo de pregar sermões – outro motivo para causar inveja.

Milão era a capital imperial, a residência do imperador Valentinian II, ainda menino. Nesta corte brilhante, Agostinho esperava encontrar um trabalho leve. Seus ganhos já o tinham feito de certa forma rico: ele podia pagar a passagem de sua amante de Cartago e a do filho dela, Adeodatus. Ele era popular. Tinha uma villa, e tinha vários amigos em Cartago para fazê-lo sentir-se em casa: seu irmão, Navigius, dois primos, Rusticus e Latidianus, Alypius e alguns outros.

Logo ele convidou Mônica, e ela decidiu que chegara a hora de seu filho deixar de lado sua amante e conseguir uma esposa de status social mais elevado. Ele podia ficar com o menino, mas a mulher tinha que ir. Por alguma razão, ele consentiu. “Quando eles a levaram no meu lado, aquela ao lado de quem tinha dormido por tanto tempo, meu coração foi ferido no lugar onde se unia ao dela, e a ferida ficou sangrando.”

Seguiu-se, então, o período que deve ter sido o mais doloroso de sua vida. Mônica orava na esperança de que ele mudasse de vida, se tornasse cristão e se rendesse à vontade de Deus.

A crise, muito esperada e pela qual muito se orou, veio em julho de 386. Quando ele falou sobre esta estranheza que vinha sobre ele, não pôde achar melhor descrição do que dizer que ela possuía uma qualidade de luz perfeita e constante.

“Em tais momentos”, ele escreveu, “eu tenho consciência de algo dentro de mim que toca diante de minha alma e é luz dançando na frente dela; se isso fosse trazido em constância e perfeição dentro de mim, com certeza seria a vida eterna”.

Mas não foram muitas as vezes em que ele esteve consciente desta luz e, por toda sua vida, segundo seu próprio relato, ele esteve plenamente consciente dela apenas uma vez – num jardim, num dia quente de verão.

“Por que não agora?”

Como conta Agostinho, o dia começou normal. Ele estava na villa com Alypius e sua mãe. Então chegou um visitante, um oficial da casa imperial chamado Pontitian, africano e cristão, que tinha chegado de Treves.

Eles sentaram para conversar e de repente Pontitian observou um livro em cima da mesa, uma mesa que tinha sido preparada para um jogo de dominós. Pontitian abriu o livro à toa e ficou surpreso em descobrir que continha as epístolas de Paulo. Enlevado, ele falou de sua conversão, de Antão e dos eremitas do Egito, então falou dos monastérios da Itália, e particularmente do monastério fora das paredes de Milão onde Ambrose algumas vezes oficiava.

Pontitian louvava a vida devota e contou a história de dois de seus amigos que, depois de ler a vida de Antão, resolveram ir para um monastério. Alguns dias depois, as mulheres para quem estavam prometidos em casamento também se tornaram cristãs e se dedicaram à castidade.

Agostinho ficou tão emocionado como jamais ficara em toda sua vida – especialmente pelo pensamento das jovens noivas comprometidas com a castidade. Parecia-lhe que enfim ele estava sendo levado a confrontar a si mesmo, vendo a si mesmo nojento, torto, manchado pelo hábito da lascívia e então deveria pôr um fim nisso tudo.

Quando Pontitian se foi, Agostinho falou para Alypius. “Qual é o problema conosco?” – perguntou. “Sim, qual é? Você não ouviu? Homens simples tomam o céu pela violência, mas nós, sem coração e instruídos, veja como somos infelizes! Nós temos vergonha de seguir porque outros foram antes de nós, e não estamos envergonhados nem mesmo de seguir?”

Sua mente pegava fogo. Alypius quase não o reconhecia, de tão mudada que estava sua expressão, e quando Agostinho saiu da casa correndo, Alypius o seguiu de perto, talvez com medo de que ele se ferisse.

Descansando no jardim, Agostinho se viu confrontado de novo com o problema da vontade. As velhas tentações voltaram, mais astutas do que nunca, até que ele não podia mais suportar a presença de Alypius e saiu chorando do jardim, achando a solidão numa figueira distante. Lá ele balbuciou como uma criança; “Quanto tempo, quanto tempo? Amanhã e amanhã? Por que não agora? Por que não pode haver um fim para minha impureza agora?”

Quase esperou ouvir Deus o intimando das nuvens, mas a voz que ele ouviu veio de uma criança desconhecida cantando: “Tolle, lege” [Levante e leia]. Para Agostinho, as palavras vieram como uma visita angelical.

Parou de chorar, levantou-se e correu ao lugar onde Alypius estava sentado com as epístolas de Paulo ao seu lado. Agostinho abriu o livro, e seus olhos caíram no verso da Epístola aos Romanos, onde Paulo exige que o servo de Cristo renuncie a todos os prazeres: “Comportemo-nos com decência, como quem age à luz do dia, não em orgias e bebedeiras, não em imoralidade sexual e depravação, não em desavença e inveja. Ao contrário, revistam-se do Senhor Jesus Cristo, e não fiquem premeditando como satisfazer os desejos da carne” (13.13-14).

Ele pôs seu dedo na página, enfim calmo, e, com Alypius ao seu lado, entrou na casa para contar a história a Mônica. Ela ficou transbordando de alegria, radiante de exultação, pois o sonho de seu filho convertido tinha, enfim, se tornado realidade.

Uma visão de brilho momentâneo

Embora Agostinho tenha finalmente se convertido e nunca tenha perdido sua fé em Deus, as tentações continuaram. Ele tinha amado “a beleza perecível do corpo, o brilho da luz, a suave melodia das canções, o delicioso perfume das flores e os membros feitos para o abraço da carne”. Seu sangue quente não foi esfriado pela conversão: como muitos outros, ele teria que esperar até que fosse velho o suficiente antes que o demônio da carne fosse silenciado.

Ele era o menos calmo dos santos, o mais impetuoso, e até mesmo depois de sua conversão ele foi capaz de falar sobre dúvidas, como se entendesse muito bem do assunto. Ainda assim, foi sustentado pela visão no jardim de brilho momentâneo, uma visão que nunca pôde explicar completamente. Tudo que podia dizer era que “foi como se a luz da salvação tivesse sido derramada em meu coração”.

Epístolas que abriram os olhos

Não é coincidência que Agostinho estivesse lendo as cartas de Paulo no dia da sua conversão. Ele estudou Paulo primeiro com os maniqueístas, que consideravam o apóstolo (pelo menos em seus extratos dos escritos de Paulo) um excelente profeta de Mani. Agostinho ouvira uma interpretação cristã pela primeira vez com Ambrose, que pregou sobre Paulo quando Agostinho foi a um culto em sua igreja. Agostinho realmente mergulhou nas palavras de Paulo quando estava pesando as alegações dos neoplatonistas; ele dispensou suas noções porque as verdades sobre o amor e a graça de Deus “foram por mim compreendidas quando eu li o menor dos seus apóstolos”. Mais tarde, a influência de Paulo dominou muito da teologia de Agostinho, particularmente seus escritos sobre a lei, o pecado original, vontade humana, salvação e escatologia.

*Templo dedicado a Júpiter e cidadela da antiga Roma (N. da T.)

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Fonte: http://www.cristianismohoje.com.br/

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